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Quinta, 24 de Maio de 2018

Empurra para eles (ou no deles): como tirar o meu da reta

07 MAI 201811h33
Contabilidade

A saúde é sempre notícia em nosso País, e quase nunca por bons motivos. Em nossa Capital Morena não é diferente embora, a depender da fonte, tenhamos histórias diferentes.

O gestor municipal propagandeia conquistas e sucessos. A massa usuária do sistema amarga as penúrias da realidade, em nada coincidente com a versão do poder público.

Para não alongar (e há muito assunto) vou me deter ao atendimento nas UPAS: para quem não sabe, este formato de unidade de atendimento foi pensado para fazer frente aos casos de urgência e emergência, com objetivo de ESTABILIZAR OS DOENTES PARA PODEREM SEGUIR PARA AS UNIDADES DE MAIOR COMPLEXIDADE. 

O que tem acontecido, na vida real, sob a atual administração?

1. O público interno (servidores públicos) viram seus vencimentos (que já não eram grande coisa) subtraídos em percentagens variáveis. No meu caso, 30%. Um grande estímulo para alguém com 23 anos de serviço. Isto sem falar em várias "medidas administrativas" que beiram o assédio moral.
2. Em função do acima, e também por outros motivos, não se consegue fechar as escalas das unidades (que tinham, inclusive, sofrido redução de seus efetivos). Resultado: sobrecarga para os que persistem, queda na qualidade do atendimento e maior demora.
3. As UPAS se transformaram em depósito de doentes graves, falsas UTIs, sem serviço laboratorial célere, sem especialistas intensivistas, muitas vezes sem eletrocardiograma, sem RX e, não raro, sem medicamentos básicos e até mesmo materias de consumo (sondas, luvas, tubos, pilhas, apenas para exemplificar). De uma certa forma, este represamento encontra sua causa primeira na falta de vagas nos hospitais, que nem é necessário dizer como se encontram arruinados. 
4. O serviço de regulação de vagas é quem busca e concede as vagas solicitadas, e sofrem de ineficácia não por não cumprir sua função mas, uma vez mais, pelo caos nos hospitais. Entretanto, em seu afã de executar sua tarefa, às vezes presenteia o médico da ponta (que está vendo e atendendo o doente) com pérolas de falta de bom senso. Dou um exemplo, relatado por um colega, de hoje: pediu vaga para um paciente com esmagamento da mão, devidamente descrito no pedido e a vaga custou a ser liberada com a desculpa de que não havia sido enviada a imagem de raio X. Explico que este trâmite é feito pela internet. Pensem na qualidade da conexão, softwares e máquinas disponíveis. Gastamos, não raramente, mais tempo digitando do que atendendo, provendo à regulação as tão pedidas "atualizações".
5. Numa tacada sensacional o gestor determinou, numa canetada, que os médicos clínicos devem atender os pacientes pediátricos e, quando for o caso, os encaminhar para outras unidades. Fantástica ideia!! Se não tem cão, caça-se com gato. Usando uma analogia, é o mesmo que obrigar um advogado trabalhista a defender uma causa criminal: ele o fará, mas não tão bem, e correndo o risco de cometer erros. O detalhe é que em medicina erros podem ter desfechos trágicos e irremediáveis. Isto sem falar na burocracia sem fim e sua respectiva demora para se efetivar um encaminhamento. Atitude perigosa para os médicos e os pacientes. Apenas uma observação: obviamente, em situações de emergência o médico deve agir com o melhor de sua capacidade, e isto nós fazemos.

Bastam os aspectos acima para ilustrar o total equívoco na condução gerencial da saúde  em nossa cidade, gerando nos profissionais angústia, insatisfação, desestímulo, revolta e desesperança e, para os doentes, as mesmas coisas, além dos agravos à saúde. 

O mais triste é que a população, induzida e instigada, hostiliza quem persiste labutando no front, em meio às péssimas condições gerais de trabalho já descritas, atribuindo aos médicos uma culpa que não lhes pertence, ao invés de "colocarem contra a parede"  os verdadeiros responsáveis: os gestores públicos, que certamente são muito hábeis em "empurrar" a responsabilidade do ocaso da saúde para os médicos tirando,  marota e indignamente, "o deles da reta".

Por fim, concluo dizendo que paciente não é mercadoria, médico não é mágico (e nem vilão), UPA não  é UTI e criança não é um adulto pequeno.

Cidadão, bata na porta certa para exigir melhorias: na porta do gestor. Somos tão vítimas quanto você é.

Douglas Britez Godoy

Médico

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