Mapear portadores de hepatites ainda é desafio para a saúde

A hepatite é uma inflamação do fígado e nem sempre apresenta sintomas. Muitas pessoas só percebem que estão doentes (principalmente dos tipos B e C) quando as manifestações já são graves, como cirrose ou câncer de fígado. Esses pacientes levam anos para descobrir que estão infectados e, até lá, podem contaminar outras pessoas, já que se trata de doença sexualmente transmissível (DST). Realizar o diagnóstico precoce é um dos principais determinantes para evitar a transmissão ou a progressão das hepatites e suas consequências. Os testes para a doença estão disponíveis em toda a rede do Sistema Único de Saúde.

No Brasil, enquanto a hepatite B é mais frequente na faixa etária de 20 a 49 anos, a hepatite C acomete mais pessoas entre 30 e 59 anos. A maioria dessas pessoas desconhece sua condição sorológica. No caso da hepatite C, por exemplo, há pessoas que fizeram transfusão de sangue antes de 1993 (quando não havia teste para diagnosticar a doença) ou que utilizaram seringas não esterilizadas que podem estar infectadas pelo vírus sem saberem.

O papel do médico
O momento de consulta é uma oportunidade que o médico tem para para recomendar o exame de DSTs, não apenas das hepatites, mas também de aids e sífilis. Desde março, o Conselho Federal de Medicina recomenda que os profissionais orientem os pacientes na primeira visita a fazer os testes. “Queremos que tanto médicos, quanto pacientes, percam a inibição de falar sobre o assunto. Ainda temos um universo grande de pessoas que sofrem com essas doenças e não estão diagnosticadas. Esperamos que, num médio prazo, aumente o número de diagnósticos e tratamentos”, explica o presidente do CFM, Carlos Vidal.

O resultado do exame de hepatite possibilita ao profissional indicar o tratamento, e também notificar a doença às autoridades de saúde, possibilitando um panorama real do número de casos existentes no país. Isso é fundamental para o desenvolvimento de políticas de prevenção e combate à doença.

Metas
O Brasil estabeleceu como objetivo atingir cobertura vacinal superior a 90% e identificar os quase 2 milhões de brasileiros que o Ministério da Saúde estima que estejam infectados pelos os vírus B e C. Porém, os últimos dados gerais sobre hepatites no Brasil disponíveis são de 2011: em dois anos haviam sido notificados 343.853 casos da doença (dos tipos A, B, C, D e E), com média de 40 mil novos casos/ano. A pasta informou apenas que, na faixa etária até 15 anos, constatou-se uma redução de 46,2% nos casos de hepatite B: em 2005, eram 594 casos e em 2014 foi de 320. Segundo dados de 2013, o Brasil notificou 17.814 casos de hepatite B.

Já no Rio Grande do Sul, em 2015, foram confirmados 1.797 casos de hepatite B e 2.881 casos do tipo C. Entre 90 e 95% dos adultos infectados irão eliminar o vírus de forma espontânea, os restantes se tornarão doentes crônicos. É esta possibilidade de cura espontânea que pode levar a população a não se preocupar tanto com a infecção, embora o vírus da hepatite tenha maior transmissibilidade que o HIV.

Prevenção
Existem várias medidas que podem evitar a transmissão das hepatites virais. Tais como: usar preservativo em todas as relações sexuais; exigir materiais esterilizados ou descartáveis em estúdios de tatuagens e piercings; não compartilhar instrumentos de manicure e pedicure; não usar lâminas de barbear ou depilar de outras pessoas; não compartilhar agulhas, seringas e equipamentos para drogas inaladas e pipadas, como o crack.

Também estão disponíveis vacinas contra hepatites A e B. Elas fazem parte do calendário de vacinação infantil. Para adultos, a primeira é encontrada apenas na rede privada. Já a vacina contra a hepatite B é oferecida no SUS para jovens até 29 anos, populações vulneráveis (como profissionais do sexo, homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas) e profissionais da saúde. Recém-nascidos devem receber a primeira dose preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida. Se a gestante tiver hepatite B, o bebê deverá receber, além da vacina, a imunoglobulina contra o vírus.

Entenda as diferenças entre os principais tipos de hepatite:

A – Transmitida normalmente através de alimentos ou contato pessoal, dura cerca de um 1 mês. É uma infecção leve e que cura sozinha. Existe vacina.
B – Transmitida principalmente através de relações sexuais e contato sanguíneo. Age silenciamento no fígado por até 30 anos, levando a cirrose, câncer de fígado e até a morte. Há vacina e tratamento. As curas totais são raras, mas é possível conviver com a doença.
C – Com transmissão por contato sanguíneo e sem vacina, representa a maior epidemia atual, cinco vezes superior à de HIV. São cerca de 200 milhões de pessoas no mundo vivendo com o vírus, que é a principal causa de transplantes de fígado, além de também levar a cirrose, câncer de fígado e morte.
D – A infecção ocorre apenas em pacientes já portadores da hepatite B, acelerando a progressão da doença.
E – Transmitida por via digestiva (fecal-oral), provoca epidemias regionais. Não se torna crônica, mas grávidas podem apresentar formas mais graves da doença.
 

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