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sábado, 06 de junho de 2020

Médicos cubanos para quê?

24 MAI 2013Por: Jorge Luiz Baldasso - Médico15h27
SESCON SINMED
Diagnóstico e tratamento da tuberculose; diagnóstico diferencial entre eclampsia e síndrome de Help na gestação; como combater o sedentarismo na comunidade; a importância do teste do pezinho; principais sintomas da apendicite. Estas são algumas das perguntas da etapa dissertativa da prova de revalidação do diploma para médicos estrangeiros que querem atuar no Brasil. São perguntas básicas, que todo médico tem obrigação de saber para poder exercer a medicina com segurança e prestar um bom serviço à população. No entanto, apenas um em cada dez médicos estrangeiros que recentemente fizeram esta prova foram aprovados, sendo que aqueles que se formaram em Cuba estiveram entre os que obtiveram os piores resultados – só 5% passaram no teste.

Desta forma, não poderia haver noticia pior para a saúde pública do país, que já padece de tantas dificuldades - cito as três principais: falta de recursos, má gestão e corrupção - do que um projeto que está em estudos em Brasilia, cujo escopo é dispensar os médicos estrangeiros da tal prova de revalidação. A justificativa: faltam médicos no interior do Brasil. Uma questão falsa! Existem 400 mil médicos atuando no país, média de um médico para cada 500 habitantes – o dobro do que preconiza a Organização Mundial da Saúde. O que está acontecendo é que os médicos brasileiros não querem trabalhar onde não existam condições mínimas para o exercício da profissão (o código de ética médica – capitulo II, itens IV e V - é muito severo quanto a esta questão). Pesa também o péssimo salário, em média 2 a 3 mil Reais por 20 horas semanais, um valor ridículo se comparado às responsabilidades que recaem sobre este profissional.

Médicos de diversos países postulam trabalhar no país, mas os cubanos são os que mais preocupam. Não apenas em razão de sua formação deficiente, mas, principalmente, pela forma como serão contratados. Se prevalecer o mesmo tipo de acordo feito entre os governos de Cuba e Venezuela, cada médico cubano custará ao país cerca de 23 mil Reais (dos quais ele receberia pouco menos que um salário mínimo... o restante fica com o governo de Cuba); por menos que isso, poder-se-ia contratar três médicos brasileiros, em regime integral. Mas o pior é o exemplo do que aconteceu na Venezuela, onde a medicina está “acabada” (segundo o presidente do CFM).

O Brasil não seria o único pais do mundo a importar médicos. Vejam o modelo da Inglaterra, onde um terço dos médicos são estrangeiros. Para exercer a medicina naquele país, entretanto, é imprescindível o teste de revalidação, fazer um exame prático, apresentar documentos que demonstrem capacitação, atestado de bons antecedentes e ser fluentes no idioma do pais. Apesar de todas estas dificuldades, lá não faltam médicos. Detalhe: as condições de trabalho são excelentes, quase não existe corrupção (lá, pasmem, os corruptos vão pra cadeia) e o salário médio é de 11 mil Libras (cerca de 30 mil Reais). Nos Estados Unidos o exame é ainda mais difícil: a prova de revalidação é composta de quatro etapas, dificílimas.

Então, a pergunta que não quer calar: por que o Brasil não está preocupado com a qualidade dos médicos que vai importar? E o que haveria por trás desta urgência em trazer estes profissionais que lidam com a vida, a ponto de se dispensar a comprovação de sua qualificação? Mas o que causa maior inquietação é essa sensação de que somos todos – médicos e não médicos – cidadãos de segunda classe, que trabalham ou são usuários de uma saúde precária, onde, mais do que médicos, faltam leitos nos hospitais (quase sempre superlotados), os exames e cirurgias demoram meses ou anos para serem feitos e há carência de materiais, equipamentos de boa qualidade, remédios... Enquanto isso nossos governantes tratam sua saúde em serviços de primeira linha, como o hospital Sírio-Libanês em São Paulo, referência mundial em tratamento de câncer. Nenhum deles se trata com médicos cubanos, como fez o então presidente venezuelano Hugo Chaves que... morreu!

Espera-se que nossos homens públicos, que já demonstraram não ter capacidade para fazer melhorar nossa tão sofrida saúde pública, tenham pelo menos um pouco de coerência.

Jorge Luiz Baldasso - Médico
Delegado Sinmed-MS


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